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Madeira: A primeira paragem de uma viagem ao sabor do vento

Embarque com a NIM nessa história da Família Wind, que viaja pelo mundo sem data para voltar!

Não é todos os dias que ouvimos uma história como esta! Já imaginaste deixares tudo para trás e ires descobrir o mundo, com a tua família, num veleiro? Parece um pouco difícil, quase utópico nos dias de hoje, mas para a Wind Family não. Esta família, natural de Cascais, parte em busca de um sonho: conhecer o mundo, sem data para voltar.

Aquando da passagem desta “tripulação” pela nossa “Pérola do Atlântico” (28 de setembro a 25 de outubro), a NIM teve o prazer de estar à conversa com a matriarca da família, Inês Saldanha Pisco, que nos contou tudo sobre esta aventura, que teve início há 17 anos, e que está a causar sensação, merecendo destaque em vários órgãos de comunicação social.

Os Saldanha Pisco estiveram uma semana na ilha do Porto Santo, três semanas na ilha da Madeira e ainda um fim-de-semana nas ilhas Desertas, passando ainda pelas Selvagens. Neste momento fazem escala na ilha de Gran Canária (Canárias, Espanha). Acompanha-nos nesta história e quem sabe se também não ficas inspirado em mudar de vida, de rotina, em seguires um sonho ou te lançares a um novo desafio.

Foto: Wind Family
Tripulação:
  • João Saldanha Pisco – É o mais velho (43 anos), o chefe da família Saldanha Pisco e o responsável da embarcação. A Inês chama-o de “capitão” e diz que ele é que ditará as regras do barco;
  • Inês Saldanha Pisco – É a mãe (36 anos) e a relações públicas da equipa. É a voz ativa da tripulação. É ela quem dá vida ao blogue e às redes sociais da “Wind Family“. Considera-se uma pessoa bem disposta, positiva e feliz com a vida;
  • Alice – É a filha mais velha, com 10 anos. Ela é a que ajuda mais, é a mais responsável. A mãe descreve-a como sincera (não consegue mentir),a mais arrebitada, “mamã” dos irmãos e a mais perseverante;
  • Manel – É o mais velho dos rapazes, com 8 anos. Inês descreve-o como “o seu borracho, o mais introspetivo, o engatatão, o que inventa descaradamente, o surfista, o skater e o beijoqueiro”;
  • Francisco – É o segundo mais novo, com 5 anos. A mãe carateriza-o como “o mais artista, o que canta e dança e está sempre feliz! o birrento, o engraçado, o dengoso, o mimalhas, o criativo!”
  • Teresinha – É a mais pequenina, com apenas 2 anos. É a princesinha da família. Inês descreve-a como a “adorada pelos manos, a mais afoita, a mais teimosa, a mais desafiadora, a destemida, a fofa, a que come tudo o que apanha!”
Princípio

Esta história começa, como muitas outras, com duas pessoas que se conhecem e que se apaixonam.

Eu tinha um sonho, ainda antes de nos conhecermos (Inês e João), de ter muitos filhos e de dar a volta ao mundo. Eu e o João estamos juntos há 17 anos, temos 4 filhos e estamos a dar a volta ao mundo!

Como é que se conheceram?

Inês Saldanha Pisco (I.S.P) – Nós conhecemo-nos (Inês e João) numa peça de teatro, que uns amigos, que tínhamos em comum, nos convidaram para participar. Tudo começou numa conversa, que o João diz que era de engate (risos). A primeira impressão que eu tive do João foi: “Quem é este velho que está aqui”….foi a primeira coisa que eu disse acerca dele. Ele tem o cabelo branco desde os 16 anos. Ele tinha 25 anos (primeiro encontro), mas parecia muito mais velho, mas muito mais velho. Começámos a falar mais e a vermos que tínhamos muitas coisas em comum e apaixonámo-nos.

Foto: Wind Family
O que é que faziam profissionalmente?

I.S.P. – Embora eu seja assistente social, exerci durante pouco tempo, e depois abri a minha empresa, com a minha sócia, e começámos a organizar eventos. O João sempre foi professor de fotografia e largou também por completo o seu trabalho, tal como eu. As pessoas perguntam se tirámos um ano sabático, mas não, largámos (as profissões) por completo.

Como é que surgiu esta ideia?

I.S.P. – Ainda não namorávamos e isto (dar a volta ao mundo num veleiro) já era um sonho. O João fazia vela e viu numa revista que havia uma família, com muitos filhos, a dar a volta ao mundo. “Isto é que é vida. Quero fazer uma coisa destas.”, disse o João, e assim foi. Durante muitos anos este tema voltava à conversa sempre como um sonho, mas não passava disso, até que há sete anos atrás, durante umas férias, já me estava a “enjoar” o facto da conversa vir sempre à baila e de nunca ser posta em prática. Como eu tenho a mania que faço acontecer tudo, olhei para ele e disse que iríamos fazer isto (viagem) acontecer. Se nós decidirmos não é impossível.

Um dos grandes objetivos desta viagem é levar um propósito social e fazer ajuda humanitária pelo mundo. Tenho a certeza que irei fazer isto em muitos sítios. Quando eu chegar a Cabo Verde, vou já começar a pôr em prática os meus projetos sociais (“Letters of Love” e “Menos Lixo, Mais amor”). Vou pegar nos meus filhos e ir pelas escolas dar formação e dar um contributo aos sítios onde vou passar.

Como é que planearam esta viagem?

I.S.P. – Começámos a juntar esforços para que isto pudesse acontecer. Entretanto surgiram várias interrogações. Como é que será a escola dos miúdos? Como será a questão da saúde? Onde é que arranjamos dinheiro para comprar um barco? Foram sete anos de preparação para que isto (viagem) se tornasse realidade. Estivemos a juntar dinheiro para comprar o barco. Temos um pé de meia e vamos sobreviver com as casas que alugámos (uma em Lisboa e outra no Estoril).

A escolha do veleiro

I.S.P. – O João gostou muito deste veleiro. Andou a navegá-lo durante algum tempo, foi ao Panamá ver se ele (barco) estava de acordo com o que lhe parecia, andou com este veleiro durante 15 dias. Depois de fazer estes testes mais sérios, porque comprar um barco é diferente do que comprar um carro, disse-me que era este o barco que queria e trouxe-o para cá. O barco tem 15 metros de comprimento e apesar de ter sido comprado no Panamá, tem bandeira belga. Esta embarcação contém uma cozinha, uma casa de banho, três quartos de dormir (um para os pais, outro para os meninos e outro para as meninas), um salão, um quarto de visitas e ainda uma oficina, para solucionar qualquer problema que apareça.

Foi o dia mais feliz da vida do meu marido! Nem no nascimento dos filhos se ele estava assim. Eu nunca vi os olhos dele brilharem tanto, como quando ele comprou este barco. A minha paixão não é o mar, eu faço isto para ver o João feliz. Já valeu a pena! Mesmo que isto acabe daqui a 6 meses, por algum motivo, já compensou porque eu nunca vi o João tão feliz na vida. Nunca, nunca, nunca! Ele parecia um puto que realizou o sonho dele, de uma vida inteira!

Veleiro sustentável

I.S.P. – Quando trouxe o barco para cá, há um ano e meio, ele equipou-o e tornou-o completamente sustentável. A única coisa no barco que não é sustentável é o motor, que o João usa eventualmente para uma manobra de estacionamento. O barco tem painéis solares, que geram toda a energia que nós precisamos, tem um gerador eólico, que de noite e de dia fica a captar o vento, que também nos oferece a energia que precisamos a bordo, para cozinhar, carregar computadores e telemóveis, iluminar o barco…..portanto toda a energia vem do sol e do vento. O João instalou também uma dessalinizadora, que é uma máquina que transforma a água do mar em água potável. Portanto nós temos sempre água, visto que estamos no oceano não há de ser difícil (risos). O João ainda colocou um piloto de vento, que é uma coisa única, que faz com que o barco navegue sozinho. Temos também carretes, duas canas de pesca sempre ativas, a fazer currículo, e isso dá-nos peixe, comida suficiente para nos mantermos.

Viagem com poucos gastos

I.S.P. – Vamos também andar de sítio em sítio, comprando nos mercados locais, porque em muitos lugares onde faremos escala, nem existe supermercados. Se tivermos de comer banana e pão, num determinado local, assim será. Mais sustentável do que isto é impossível, até porque o espaço é pequeno, portanto vamos ter de reutilizar. É também obrigatório neste barco a separação do lixo. Os miúdos têm que escolher meia dúzia de brinquedos para trazer, meia dúzia de roupa….e por aí adiante.

Hoje em dia, fala-se que muito mais do que não fazer lixo é consumir pouco, reutilizar, não estar sempre a consumir sem necessidade. Isto obrigatoriamente é uma forma de vida que vamos ter de adotar no barco. Isto vai ter que ser tudo bem organizado e é uma adaptação que nós vamos transportar para o resto da vida. Neste momento dependemos uma da outra (relação com a natureza). Eu tenho um respeito por ela (natureza) que não tinha até então. Eu tenho de a tratar bem, porque preciso do vento, da água e do sol para sobreviver.

Têm recebido muita ajuda?

I.S.P. – Têm-se juntado empresas a nós, é um facto, mas até agora são parceiros, ainda não temos sponsors (patrocinadores). Os parceiros têm contribuído com produtos, têm-nos apoiado dessa maneira. Não nos podemos queixar com a quantidade de parceiros que estamos a ter, o que nos faz poupar dinheiro. Temos recebido protetores solares e tudo o que são produtos de higiene. Também ofereceram-nos sofás novos e imensas outras coisas que temos a bordo. Acredito que vai começar a aparecer sponsors, devido à visibilidade que estamos a ter. Mas eu não me “vendo” com facilidade. Eu meti-me nisto porque eu quero ter uma vida livre e longe de compromissos, portanto os sponsors terão de ser muito especiais e terão realmente de abraçar esta aventura, mas à minha maneira. Não vou fazer contratos de trabalho com ninguém. Nunca trabalhei para ninguém, não será agora que vou fazê-lo, de certeza.

Como é que escolheram o nome do barco?

I.S.P. – Eu já sabia que ia dar a volta ao mundo, e como gosto muito de escrever poesias e textos, sobre esta nossa aventura, houve uma vez que terminei com uma frase que dizia: “Quer queiramos quer não, andamos sempre todos ao sabor do vento”. Gostei desta frase, porque acho que é uma grande verdade. Nós fazemos planos, mas nunca sabemos quando é que nos calha um cancro em cima ou quando é que somos atropelados por um carro. A vida é muito pequena e muito frágil, portanto pensei naquela frase e achei que Wind Family (Família ao Vento) ficava muito giro.

Foto: Wind Family
Como é que têm chegado às pessoas?

I.S.P. – Tenho o meu instagram e é lá que eu ponho as nossas coisas. Vamos ver até onde é que isto nos vai levar. Nem que seja sentir que tanta gente está a viajar connosco e que acabamos por ser uma inspiração. Só por isso já vale a pena esta viagem.

Portanto o Instagram foi o grande promotor da vossa história?

I.S.P. – Sem dúvida. O instagram foi a grande plataforma de difusão da nossa aventura. Eu tenho youtube, mas não tenho tempo, pois o meu primeiro grande objetivo, para esta viagem, é estarmos todos bem e felizes. O instagram é uma ferramenta que não te dificulta a vida. Acabei e fazer um vídeo natural, em que sabes onde estou e o que está a acontecer. Esta rede social dá-me ferramentas para que eu, de forma natural, consiga mostrar aquilo que andamos a fazer sem me dar trabalho. Para além disso tudo, o instagram chega a muita gente, dá para fazer stories, dá para escrever nos posts e tem um poder de marketing fenomenal. Neste momento já ultrapassámos os 39 mil seguidores.

Através de uma parceria, estivemos no hotel Vila Baleira durante 3 dias. O diretor da unidade hoteleira chegou ao pé de mim e convidou-nos a ficarmos mais tempo, visto que a nossa presença e a divulgação nas nossas redes motivaram imensas reservas. Muitas pessoas perguntavam-me onde é que eu estava e se estava a gostar. Nas respostas aos nossos seguidores, eu sou muito genuína. Digo aquilo que me vem à cabeça. Se for preciso sair uma asneira, sai !

Tens alguma estratégia específica na publicação dos conteúdos?

I.S.P. – Não há muita preparação, nos vídeos. Se os miúdos estão sujos é assim que aparecem. As pessoas gostam de realidade. Já estão fartas dos instagrams a fingir !

Têm alguma rota traçada?
Foto: Wind Family

I.S.P. – Nós temos um roteiro traçado e super estudado pelo João, porque nós queremos ir com os ventos alísios (Ocorrem durante todo o mês nas regiões subtropicais, sendo muito comuns na América Central. Estes ventos sopram regularmente de leste para oeste). Não queremos afastar-nos da linha do equador, pois esta linha dá-nos os ventos mais favoráveis para esta volta ao mundo. Há locais de gostava de ir, como por exemplo a Guiné, mas o João disse que não era um vento bom para depois subirmos. Andamos a favor do vento. Apesar de termos uma rota muito bem definida, também temos a consciência de que isto vai sofrer alterações, portanto nós não fazemos disso (roteiro) uma verdade absoluta. Há sítios onde tenho a certeza de que quero ir e estar, no entanto se estiver na Papua Nova Guiné e me convencerem de que tenho ir a Palau, faço um desvio para lá. Nós começámos agora a volta ao mundo e não estava no plano fazer escala na ilha da Madeira. Eu estava a pensar ir ao Porto Santo e depois ir para as Canárias, e no entanto neste momento (à data da entrevista, 19 de outubro) estou na Madeira. Portanto a nossa viagem tem uma rota, mas é aberta.

Quais são os destinos que se seguem?

I.S.P. – Agora vamos daqui para as Canárias, depois para Cabo Verde e depois atravessamos o Atlântico. Na América central contamos visitar as Caraíbas, e posteriormente atravessar o Canal do Panamá e entrarmos na Polinésia Francesa, no Pacífico. Penso que nos vamos “perder”, se calhar uns dois aninhos, porque para ver o Pacífico minimamente, creio que este será o tempo razoável. Depois começamos a subir por Papua Nova Guiné, Indonésia, Palau, Filipinas, e entramos ali na Ásia. Eu sou apaixonada pela Ásia, portanto também gostava de me perder por lá durante algum tempo. Depois queremos ir para Madagáscar, queremos também visitar Moçambique, África do Sul, Brasil…..

Existe alguma previsão para a duração desta viagem?

I.S.P. – Vou-me perder no tempo, sem dúvida alguma. Eu comecei esta viagem, faz agora um mês, e nem sei quando é que passaram as entrevistas (dadas aos media), eu não sei em que dia estou, não tenho muita noção. A única noção que ainda tenho, deve-se ao facto de ainda estar em território português e de receber muitos telefonemas dos meus pais, o que faz com que me oriente. Eles dizem-me quando é que é fim-de-semana ou quando é que estão a trabalhar. Ainda não passou um mês e já estou completamente perdida. Não me importa se é segunda ou terça-feira, porque não vou trabalhar no dia seguinte, estou a viajar, portanto há que desfrutar. Se eu voltar a falar contigo (NIM) novamente, eu não saberei se estou em novembro ou em dezembro. Eu tenho a certeza que nos vamos perder no tempo.

Perder-me no tempo é maravilhoso.

Sempre tiveram este espírito aventureiro?

I.S.P.Sim. Eu estive dois meses na Índia, com a Alice, quando ela era pequenina (tinha um mês e meio). Tu não fazes uma viagem destas de repente, tu não fazes uma aventura destas, se até então nunca foste aventureiro. Isso é impossível. Nós sempre fomos aventureiros. Eu já vivi um ano na Amazónia, sozinha, quando era novinha, e o João já esteve perdido na Índia durante quatro meses, quando era novo. Eu fui para a Guiné, em janeiro deste ano (2020), sozinha, durante 15 dias, e não levei nada marcado. Isto tem tudo uma passado por trás. Antes de nos conhecermos já éramos assim e depois juntámo-nos muito bem, um com o outro. Senão fosse com o João, eu nunca me metia nisto. Fomos para a Índia um mês e meio. Eu andava maravilhada, na Índia, perdida no tempo. Só tinha de ter atenção à data de regresso, para não perder o avião, e nesta altura já tinha uma bebé.

Foto: Wind Family
Onde é que vão passar o Natal?

I.S.P. – Nós estamos dependentes da natureza. Eu achei que vinha conhecer a Madeira numa semana e no entanto estou aqui há três semanas. Isto é muito incerto. Das melhores coisas que fiz, no planeamento desta viagem, foi pensar nela sem ter um fim, porque dá-me uma sensação de relaxamento e uma incerteza que dá gozo.

Sítio que mais anseiam visitar?

I.S.P. – Quero muito ir ao Quiribati (país da Oceânia). Nem sabia da existência deste país e desde que vou fazer esta viagem, obviamente que passo horas no Google Earth a “perder-me”. Tu vês o Quiribati e ficas “doido”.

Imagina que eu adoro o Quiribati e quero lá viver durante 3 meses. Eu quero ter esta liberdade de gostar de um sítio e de ficar por lá.

Como é que foi a adaptação das crianças a esta realidade?

I.S.P. – Os miúdos estavam muito inquietos, antes de virmos. Foram três meses muito complicados, até mesmo para mim, que sou uma pessoa positiva, porque começas a ver que estás a alugar a tua casa e estás a abandonar o negócio da tua vida. Já viste o que é construíres uma empresa durante anos e anos e de repente mandas isso tudo para trás das costas? É uma coisa que te custa, isto não é brincadeira. “Saiu-me do pelo construir a minha empresa e de repente vejo-me a trocar uma vida estável, onde tenho a garantia da felicidade, por uma vida que é completamente incerta. Isto mexe muito contigo interiormente. Os miúdos, que são o reflexo dos pais, sentiram esta nossa insegurança durante estes últimos tempos e por isso andavam rebeldes, a comportarem-se mal, estavam inseguros. Mas agora estão miúdos super amigos, estão a ficar uma equipa e estão a ter uma união que eu nunca tinha visto. Eles estão com uma alegria muito grande, estão calmos, saudáveis e felizes.

Eles (crianças) são os reis da marina (Calheta). Eles vão os 4 por esta marina e qualquer criança vai ter com eles. As outras crianças identificam-se com eles. Estes putos já conhecem todos os miúdos ingleses que andam por aqui na marina. Eles já vão aos barcos de toda a gente

E como é que explicaram aos vossos filhos esta mudança de vida?

I.S.P. –  Não expliquei nada a nenhum deles, porque eles nasceram com isto. Quando nós decidimos isto (a viagem), há 7 anos, a minha filha mais velha tinha 3 anos, portanto ela ouvia isto desde sempre. Eles cresceram a ouvir o que íamos fazer. Isto para eles é natural. Há 3 anos que eles andam a dizer, na escola, que vão dar a volta ao mundo. Eles obrigaram-me a ir à escola,  falar na turma deles, porque as outras crianças não acreditavam neles. Os coleguinhas diziam que eles estavam malucos (risos). A Alice foi a única que se questionou se ia ou não para o 5.º ano, mas passado um mês ela estava histérica, a adorar isto (viagem). Perceber que tem os pais só para ela, que brinca o dia todo, e que a obrigo a fazer um diário de bordo, ao nível de escola, onde ela está uma hora e meia, duas horas no máximo, por dia, a fazer os estudos, penso que isto para ela é um paraíso.

Foto: Wind Family
E como é a questão escolar das crianças?

I.S.P. – Estamos numa escola americana, a Clonlaraque trabalha por projetos. É como na Noruega, na Dinamarca, onde o ensino é um pouco diferente de Portugal, que tem um currículo muito extensivo. Este tipo de ensino defende que mais vale aprender 8 projetos num ano, mas bem, do que por exemplo 500 e não te valerem de nada. Esta é uma escola que tem um ensino off campus, em que os pais são os tutores, totalmente responsáveis pelo ensino das crianças. De acordo com as idades deles, eu tenho advisors (orientações) que, quando eu estou com alguma dificuldade, eles arranjam-me aplicações, vídeos no youtube, livros e todo o tipo de ferramentas para eu conseguir ensinar às crianças estas matérias. Normalmente eles fazem os exercícios escolares de manhã, mas quando não temos tempo, porque vamos visitar o sítio onde estamos, aproveito a hora em que estou a fazer o jantar para os orientar, visto que eles ficam na mesa da sala, junto de onde cozinho, tornando-se mais fácil de lhes dar indicações. Se há coisa que eu quero nesta viagem, é dar-lhes autonomia.

Não tenho necessidade nenhuma de lhes dar mais do que uma hora e meia ou duas de escola, porque a principal escola deles é quando eles saem daqui de carro e vão para os museus do Funchal, ou quando saímos do Porto Santo em direção à Madeira,  e durante a viagem eles estão a aprender tanta coisa. Isto é uma aprendizagem diária. Não há nada que me deixe mais feliz do que esta escola da vida que eles vão ter, esta experiência.

Como é que se têm organizado para as tarefas no barco?

I.S.P. – Eu tinha uma vida de princesa. Tinha empregada todos os dias e de repente passo para um barco, onde tenho de lavar a roupa e a louça à mão, arrumar o barco todos os dias, porque ainda para mais é um espaço pequeno, portanto isto é uma realidade completamente diferente para mim. Como não sou muito ágil dói-me cada bocadinho do meu corpo, quando navego. Puxar cabos, velas….são tudo manobras que têm de ser feitas com rapidez. Os grandes velejadores têm de estar firmes e hirtos. Eu daqui a três meses sou outra pessoa, porque fisicamente esta é uma vida bastante puxada. Já dizia a música “Esta vida de marinheiro está a dar cabo de mim” (risos). Nós somos uma tripulação, somos uma equipa, para além de uma família. Eles (filhos) colaboram em tudo. Eu não posso fazer tudo sozinha, porque senão torno-me a escrava deles, o que deixa de ser prazeroso para mim. Isto tem de ser uma experiência gira para todos. À segunda-feira é a Alice que ajuda, à terça-feira é o Manel, à quarta-feira é o Francisco, e assim sucessivamente. É um ciclo que só é interrompido ao domingo, que é o dia em que todos descansam.

Nós estamos tão felizes que até lavar a louça é giro, para mim. Isto está a fazer muito sentido. O João fez quatro noites de vigia, de Cascais para cá (Madeira) e estava todo feliz. Para estares feliz tens de fazer um trabalho de que gostes. Não me posso queixar de lavar a roupa à mão, quando como recompensa irei conhecer pessoas e sítios novos. Após esta viagem, acho que os meus filhos vão ficar miúdos muito mais disciplinados, responsáveis e autónomos. Não estou nada preocupada com o futuro deles, porque estou a dar o melhor que eles podem ter na infância, com capacidades que não se ganham na escola. As crianças cada vez estão mais formatadas, menos livres e quase que já nem podem ser criativas, sequer. Cada vez que ia buscar os meus filhos à escola, ouvia pais a se desculparem por os filhos irem sujos, por terem estado a brincar. Eu apenas lhes dizia que quanto mais sujos fossem, melhor. São crianças…brincar faz parte da essência destas. As pessoas têm que repensar no que andam a fazer, porque depois criam adultos que não têm capacidade para serem felizes.

Como é que as pessoas têm reagido à vossa aventura?

I.S.P. – Há muita gente que pensa que nós somos milionários. Leio comentários como: “Para andarem a fazer isto é porque têm muito dinheiro. Andam ali no bem bom…” . Depois de nos conhecerem, percebem que somos pessoas completamente simples. Há uns dias recebi uma mensagem de uma senhora, a dizer que se tinha despedido do emprego e que a culpa era nossa, visto que a tínhamos inspirado. Ela estava a fazer uma coisa que não gostava e decidiu mudar. Recebo mensagens de pessoas que estão a mudar de vida, por nós as espicaçarmos. A melhor coisa que me podem dar é um telefonema destes e perceber que esta nossa aventura está a mexer com as pessoas. Quando tu ficas “incomodado” é sinal que vai acontecer qualquer coisa boa, pois vais querer mudar a tua vida.

Houve algum comentário que vos tenha deixado mais irritados?

I.S.P. – No Instagram, eu só tive duas mensagens depreciativas até hoje. A primeira foi: “Falam, falam, mas se fossem bons velejadores não ponham a vossa vida no instagram”. Respondi a essa pessoa dizendo que tinha um bom remédio: “Não nos siga. Escusa de estar a ver isto e incomodar-se”. Eu evito responder a este tipo de comentários. A outra mensagem foi: “Pois. É muito bom, muito bom, mas é para quem pode. Isso foi de certeza os pais que vos proporcionaram essa vida.” Eu respondi a dizer que a senhora não me conhecia de lado nenhum e para que não lhe pesasse a consciência, disse-lhe que tinham sido várias a vezes que até hoje ajudei os meus pais, em termos financeiros. “De qualquer das maneiras vou bloqueá-la, porque não pretendo ter pessoas aqui assim. Vou-lhe dizer também que você é a primeira pessoa que eu bloqueio, porque até então todas as outras foram impecáveis connosco. Um beijinho e espero que encontre a sua felicidade”, concluí. Uma vez também saiu uma notícia nossa, no jornal Expresso, onde houve uns comentários a dizer que éramos meninos ricos de Cascais, ‘betos’ de Cascais, cheios de dinheiro. Eu só pensava: “Deixa-os pensarem que eu sou milionária. Ainda bem” (risos). Existem pessoas muito frustradas nas redes sociais. As pessoas julgam-nos sem nos conhecerem, sem saberem nada de nós. Mas tento responder sempre com amor. Tu não és os comentários. Se há coisa que eu sou,  é uma pessoa segura de mim. Não é um comentário que me vai deitar abaixo.

Se houver um comentário depreciativo em alguma publicação, tenho a certeza que existem logo 10 / 15 pessoas para nos defenderem. Temos pessoas muito queridas, que nos acompanham de verdade.

O que é que mais gostaram durante a vossa estadia na Madeira?

I.S.P.Na Madeira o que mais gostámos foi sem dúvida as pessoas (risos) ! Eu tenho mensagens de pessoas a me perguntarem se eu preciso de carro e que me arranjam se for preciso. Outras pessoas mandam-me mensagens a nos convidarem para irmos provar a poncha. Houve uma mulher que chegou aqui (barco) e que me levou a roupa toda para lavar. Diariamente temos visitas, aqui na Calheta, de pessoas que passam só para nos desejar boa viagem. Chegou aqui um homem, o Donato Caires, que faz parte do Sanas Madeira (comandante operacional), que nos convidou para fazermos um curso de salvamento, lá nas instalações deles, debaixo do aeroporto, em Machico. Houve uma empresa que nos ofereceu um passeio por uma levada. Foi uma levada espetacular, a “Levada do Alecrim“. As crianças adoraram. Portanto, como não estarmos rendidos à Madeira?

A Madeira tem paisagens lindíssimas, que eu não fazia ideia. Para mim, a Madeira era aquele sítio para vir quando fosse velha, porque é perto do continente, mas nunca pensei muito em cá vir. Fiquei completamente rendida. Isto é mesmo giro.

Houve algum sítio ou experiência que vos tenha marcado?

I.S.P. – O sítio / experiência que mais gostei foi fazer a “Levada do Alecrim”. Gostei imenso ! Eu nem gosto muito de andar a pé e no entanto nunca gostei tanto de fazer uma caminhada na minha vida, não me custou nada. São 8 Km e eu fiquei ‘parva’, porque fazia o dobro. A paisagem é tão bonita que tu perdes-te! Nem dás pela distância nem pelo cansaço.

Foto: Wind Family
Alguém se atreveu a mergulhar?

I.S.P. –  Só a Alice e o capitão (João) é que tiveram a coragem de se banharem na cascata, os outros não foram. A água é gelada (risos).

O que é que acharam do Porto Santo?

I.S.P. – Adorámos o Porto Santo, achei que aquilo para famílias é fenomenal. São as Caraíbas de Portugal ! Aliás, até gostei mais do Porto Santo do que das Caraíbas !

O que é que mais gostaram da gastronomia madeirense?

I.S.P. – O prato de que eu gostei mais foram as lapas.

Para concluirmos esta conversa, qual é o conselho que deixas para todos os sonhadores?

I.S.P. –  Essa é forte. Eu sou uma convicta de que os medos nos retiram o bom da vida. Eu não digo que a pessoa não tenha medo, mas deve arriscar, ser ousada…são as minhas palavras favoritas. Porque é quando eu arrisco e quando sou ousada que eu tenho o melhor da vida. Quando tu descobres que é nestas alturas que alcanças o melhor da vida, tu nunca mais paras, porque percebes que é esse o caminho. Arrisquem! Há um ditado que diz: “Quem não arrisca, não petisca”. É tão verdadeiro esse ditado!

Não podemos só sonhar, temos de tornar os nossos sonhos em realidade, e eu ainda tenho muitos para viver e que vou pôr em prática, garanto. Então depois de perceber que foi tão difícil sonhar uma coisa como esta e mesmo assim estar a realizá-la. É preciso acreditar. O desporto mental é mais importante do que o dinheiro, para a concretização de um sonho. As pessoas têm muitos medos e com os medos perdem-se. Se digo que vou fazer uma coisa, eu faço. Não quero saber de nada nem de ninguém, porque não é a opinião, seja de quem for, que me vai parar.

A NIM espera que tenhas gostado desta conversa e que tenhas ficado a conhecer um pouco melhor desta família e da sua aventura. À Wind Family, desejamos a continuação de uma ótima viagem e a realização de todos os vosso sonhos. Ficaremos à espera do vosso regresso ao Melhor Destino Insular da Europa!

Site:

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